Resenha erótica — os “Gostos” de Neil Gaiman

Até o lúdico inglês morador de Minnesota tem seus textos mais ousados

Quando se fala de conto erótico é difícil vir outra coisa à cabeça do que os populares fóruns repletos de adolescentes — e seus hormônios a milhão — que povoam a internet. Mas nem de longe a literatura quente está na mão só dessa galera.

Muito pelo contrário, não é apenas um punhado o número de autores reconhecidos que resolveram descrever cenas de sexo para dar um calor às suas histórias — ou que tenham histórias inteiras baseadas em apenas uma cena de sexo. Esse é exatamente o caso do conto “Gostos”, de Neil Gaiman.

O inglês afamado por Deuses Americanos (que está virando série “de TV”) e pelos quadrinhos de Sandman tem sua própria peça literária pornográfica. Hoje é dia de batermos aquela resenha sobre ela.

Se trata do conto “Gostos” que faz parte da antologia Fumaça e Espelhos, publicada no Brasil pela editora Via Lettera. Basta bater os olhos que logo se vê que não são poupados retratos bastante gráficos de cenas de sexo como ele é.

Entretanto, devemos começar do início. O conto fala sobre um encontro mais peculiar do que parece à primeira vista entre um michê e sua cliente.

O conto é quase todo formado por diálogos. Interrompidos apenas, vez ou outra, para descrições das ações que ocorrem enquanto o casal conversa. Ações essas que vão de “ele pôs sua boca contra a dela. Seus lábios se tocaram. A língua dela serpenteava na dele”; passam por “ele passou a outra mão pelas costas dela, de cima para baixo, até a curva de sua bunda e a deixou ali” e chegam a “Ele espalhou lubrificante dentro e em volta do seu ânus, e então escorregou a cabeça do pênis para dentro”.

Por mais que a parte descritiva que cuide do que está sendo feito, há diálogos que também determinam os atos da dupla, a exemplo da fala: “coloque uma camisinha e me foda no cu”.

Mas nem só de putaria desenfreada vive um conto erótico — algo que muita gente por aí deveria aprender. Tal qual é característico de Gaiman, o sexo realizado pelo casal de apenas uma noite ganha toques místicos.

Explico, o acompanhante faz o que faz não apenas por gostar (ou pela grana, ou por seu tamanho). Sua profissão é fazer sexo com mulheres porque ele é muito bom no que faz. Segundo o próprio, ele “sabe de coisas”.

Ele explica seu dom em alguns trechos, como:

— Não posso ler mentes na verdade. Mas meio que posso. Quando estou na cama com alguém… sei o que faz a pessoa pegar fogo.

Ou, um trechão mais explicativo:

— Bem, também funciona com sexo. Normalmente, eu sei como estou indo. Na cama. Com mulheres. Sei o que fazer. Não tenho que perguntar. Eu sei.[..] Por isso que… meu Deus. Eu não posso acreditar que estou contando isso pra você. Quer dizer, foi assim que comecei a fazer isso pra viver.

O rapaz é um Professor Xavier da sacanagem. Algo que muda quando se depara com a cliente da noite. Ao longo de toda a transa ele se mostra confuso, desconfortável. Até que se descobre o motivo de tanto embaraço. Com ela, as coisas estão ocorrendo fora dos conformes.

— Touché. Então, você não sabe o que eu quero agora?
— Não.

O poder do acompanhante de nada lhe servia durante aquela noite. Algo que se explica ao final, com a revelação sutil de que aquela mulher não era uma simples cliente — que ela não estava buscando apenas por sexo (apesar de fazer parte da coisa).

Mas isso, é bom que você descubra sozinho. Afinal, estamos em uma era na qual pessoas se importam demais com spoilers.

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